terça-feira, setembro 06, 2005

Da inconstância das nossas acções

O nosso procedimento habitual é seguir as inclinações do nosso desejo, para a esquerda, para a direita, para cima e para baixo, para onde quer que nos empurrem os ventos das circunstâncias. Não pensamos no que queremos senão no instante em que o queremos, e mudamos como o animal que adquire a cor do local onde o pousam. O que agora mesmo acabámos de projectar, em breve o viremos a alterar, e, pouco mais tarde, voltaremos sobre os nossos passos: tudo não é senão oscilação e inconstância,

["Somos manobrados como títeres por músculos alheios" - Horácio, Satirae, II, vii,82]

Não andamos, somos arrastados como coisas flutuantes, ora suave ora violentamente conforme o mar está calmo ou encapelado:

["Não vemos que cada homem não sabe o que quer e procura sempre mudar de lugar como se pudesse livrar da sua carga?"- Lucrécio, De rerum natura, III, 1057-1059]

Montaigne,"Da inconstância das nossas acções",Ensaios (Antologia), pág 153, Relógio d'Água.